Transcrever emoções, sentimentos, passado, futuro ou desejos, é viver - ou reviver - tudo o que há de melhor.

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Menos ácido


Adoro tua magreza. Aliás, adoro nossa magreza. Tuas pernas cruzadas são extremamente atraentes. Tens ideia deste fato?
Gosto de teus olhos com essa sombra e de teus dentes quadradinhos. Gosto de teu sorriso realçando as maçãs de teu rosto. Gosto de teus cabelos esvoaçando. Gosto deles bagunçados, do cheiro que deixam em meu ar, de tua voz, do quentinho que deixas em meu peito, e... Será que tens ideia deste fato?
Gosto de teus pensamentos, gosto novamente de tua voz, daquela tua blusa vermelha que você puxa as mangas fazendo-as cobrir tuas tão bem feitinhas mãozinhas, e gosto muito dos nós de teus dedos. Gosto de tua arte, de teus pratos pintados, de teus copos azuis, de teu jeito tímido, de teu corpo envolto em nada além de meu casaco, e gosto de como tocas o trompete.
Gosto de como falas, de com andas, de teu nariz e de teu pescoço. Gosto de teus CDs e de te ouvir cantando. Gosto de teu sorriso, e amo saber que não tens ideia deste fato. Gosto de saber que não gostas de que os outros saibam o que passa em tua cabeça. És uma semideusa, e constantemente me pergunto: Será que tens ideia deste fato?

quinta-feira, 7 de junho de 2012

Érica Paciente

Invadiu seu espaço por diversas vezes. Fingiu não perceber nada, fez de conta, acalmou-se, mas agora não era mais possível. Roubou-lhe dois amigos, tentou roubar-lhe outro mais, e não obteve sucesso. Obteve, aliás, resultado contrário: Possuía agora dois inimigos.
Érica cerrava os punhos ao pensar em Yago. Era uma parte de seu passado da qual odiava lembrar. Érica amava o passado, mas Yago era uma exceção. Odiava-o com todas as suas forças. Ele agora fazia novas investidas contra seu presente. Tentava aparecer em suas fotografias e roubar novos e velhos amigos.  E a irritava profundamente. Crescia seu ódio, seu punho cerrava mais, suas mandíbulas rangiam, seu peito ficava pesado, soltava três palavras e um riso de escárnio. O nome de Yago soava em seus ouvidos como gritos desesperados de crianças. A coisa que ela mais odiava.

domingo, 27 de maio de 2012

Eyes wide shut


Era uma bela cena. O pecado mais pecaminoso.
A su derecha ocho cuerpos llenos con amor y sudor. Besos y abrazos.
On his right he could see a very similar scene, except that there were lots of wet bodies.
À sua frente estava a fonte da bela voz que ouvia. A perversidade recheando uma face angelical. Aproximou-se muito rapidamente. Ela estava sentada à beira do que parecia ser um palco. Um palco suficientemente alto para que os olhos de ambos ficassem à mesma altura. Olhou-a por 5 segundos, deitou as mãos em suas coxas e percebeu certo tremor na voz antes perfeita, aveludada, imaculada. Sentiu os poros fechando-se.
Beijou-lhe o pescoço e o lóbulo da orelha. Sentiu as pernas dela prendendo-lhe com força. Mordeu-lhe os lábios com extremo cuidado, pediu sua língua e sentiu o corpo da linda Marcela enrijecer e a respiração ficar mais curta.

O restante não me compete contar. De olhos bem fechados, você saberá o que ocorreu, não é mesmo, Kubrick?

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Memorável solidão?


Depois de trinta e nove minutos na sala de espera lendo uma revista que há dois anos fora lançada, seu nome foi chamado - “Ricardo Mendes.”
Levantou-se calmamente e dirigiu-se à pequena sala. Quando passou pela recepcionista, acenou levemente com a cabeça. Era linda. Linda demais.
Tinha toda a mentira arquitetada. “Que estupidez”, pensou Ricardo consigo mesmo, “acabo de pagar noventa reais para poder contar mentiras.”
Meteu-se porta adentro, e dois passos depois, parou para encarar a dona dos olhos que o analisariam. Excessivamente bonita.
“Isto não é certo, caro leitor. O julgamento não é justo tendo à minha frente um ser tão superior.”
Não abriu a boca. Olhou para a poltrona vazia à sua frente. Sua juíza concordou com os olhos e ainda abriu um meio-sorriso. Ricardo sentou-se, abaixou a cabeça, pousou a mão na testa e apertou os olhos em sinal de desespero. Sua representação durou cinco segundos. Quando levantou a cabeça, a mulher que era loira há alguns segundos agora estava morena. Seus olhos, antes castanhos, eram de um verde estonteante.
Apertou os olhos uma vez mais, balançou a cabeça e com as mãos tremendo, arriscou um novo olhar. Não era possível. Enlouquecera. Sentiu-se impelido a beijar-lhe as bochechas. Cerrou os olhos e forçou a mandíbula. Sentiu o peito comprimido. Tentou falar mas não conseguiu abrir a boca. Sentiu o amargo do sangue misturando-se à saliva. Limpou a testa com as costas das mãos.
Uma forte brisa invadiu a sala e Ricardo sentiu-se incomodado. Procurou uma janela aberta e não achou. De onde viera a brisa? Engoliu um pouco do sangue e tentou reclamar com a doutora que já então não era loira e tampouco morena. Era agora uma Dona ruiva com lindas sardas. Palavras não saíram.
Pensou em levantar-se mas desistiu para poupar o fôlego. Seu cérebro sentia a falta do oxigênio.
Desmaio iminente. Piscou para a doutora. Dois segundos antes do desmaio, ouviu seu nome:
“Ricardo Mendes.”
Virou-se repentinamente e mirou a secretária, que ao perceber que ninguém respondera, chamou uma vez mais: “Ricardo Mendes”. Ricardo levantou-se. Não conseguiu conter um sorriso. Encontrava-se na sala de espera. Largou a velha revista em cima da pequena mesa e dirigiu-se à porta aberta. Tinha toda a mentira já arquitetada.