Transcrever emoções, sentimentos, passado, futuro ou desejos, é viver - ou reviver - tudo o que há de melhor.

sábado, 4 de agosto de 2012

Psyc


“Recobrei a consciência mas não mexi uma pálpebra sequer. Senti alguém lamber-me as bochechas, e apertei os olhos. Lembro-me vividamente do desespero que senti. Abri e fechei as mãos vagarosamente. Meus músculos doíam. Não conseguia mexer nada além das mãos, olhos e boca. Meu corpo estava muito pesado. Senti algo me invadindo a boca, algo um tanto flácido e de estranha textura. Com toda a força que pude juntar, forcei as mandíbulas e ouvi um urro de dor. Um líquido sabor ferrugem me encheu a boca, e instantaneamente abri os olhos para descobrir um leão saltando de lado a lado, rugindo para o céu.”

“Este foi seu sonho, senhor Mendes?“ – Perguntou a doutora enquanto ajeitava seu par de óculos.

“Sim, este foi meu sonho.” – Ricardo riu-se por dentro. Que belo mentiroso era.

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Mendes, Ricardo. Setembro de 2011.


Caros amigos, alguns de vocês já sabem de minha história. Sou eu, Ricardo. Alguns me chamam de Mendes. Em verdade, só me chamam assim nas clínicas psiquiátricas que frequento. É por culpa dos doutores e doutoras de tais clínicas que estou aqui escrevendo. Recomendaram-me que usasse uma espécie de diário para aliviar todas essas coisas que acontecem em minha cabeça ou em minha vida. Me disseram que estou um tanto doente, mas que posso me curar.


O que lhes conto hoje é que, na noite passada, fui parar num motel barato depois de muita vodka – lembrei-me de Camila, amigos. 
A garota que me acompanhava estava tão alcoolizada quanto eu. Tinha olhos castanho-escuros, cabelos vermelhos, pele clara e chamava-se Karen. Era um tanto atraente, amigos. Perguntei-me mentalmente como é que eu acabava com pessoas mais atraentes que eu, deitadas ao meu lado em uma cama de motel.
Beijei-lhe o pescoço, o colo, os seios, e tivemos trinta e cinco minutos agradáveis. Se quiseres, dê asas à vossa imaginação. Não entrarei em detalhes. Fato curioso foi encontrar-me desesperado para sair dali.
Apesar de ser um motel um tanto barato, havia uma banheira no local, a qual enchemos, entramos, e onde ficamos conversando. Ela acendeu um cigarro de cravo e ficou criticando minhas pernas cruzadas dentro da banheira. Calculei quantas horas dormiria para acordar já na hora de deixar o motel. Estava inquieto e mal conseguia disfarçar.
Karen começou alguns assuntos algumas vezes, mas eu estava distante. Vou-lhes ser sincero esperando que nenhum julgamento seja a mim direcionado: eu estava envolvido com outra pessoa. Acho que sentia uma dose de culpa ao pensar nela. Karen falou sobre morte, e eu tive vontade de largá-la na banheira. Não tentei disfarçar e fui deitar-me. Não dormi mais que uma hora, minha senhora. Acordei e liguei a tevê. As horas arrastaram-se. Desejei ter um bom livro ou muito álcool.
Amigos, tomei a decisão mais improvável. Adiantei meu relógio e o celular da Karen em duas horas. Não conseguiria aguentar por muito mais tempo. Acordei-a e disse que precisávamos ir embora.
Levantamo-nos e saímos do quarto, passamos pela recepção e chegamos à rua. Meus pensamentos ainda chegavam à Millie. Millie, caro leitor, é o nome da garota com a qual eu me encontrava envolvido. Disse à Karen que eu precisava correr pra casa de um amigo e pegar uma coisa que tinha esquecido. Ela não acreditou muito, mas não me importei com isso. Duas horas mais tarde recebi uma mensagem da Karen, que me perguntava se eu me encontraria com a outra. Senti enorme arrependimento por ter passado a noite a seu lado.

Querido leitor, se já me julgastes por ter passado a noite com Karen estando envolvido com Millie, sugiro que encerre por aqui a leitura. 

Seis horas mais tarde eu estava abraçado com Millie, e, caro amigo leitor, ela era impossível de segurar. Jantamos juntos, conversamos, rimos, e, ainda assim, eu não sentia-me atraído por ela. Ela usava a droga da língua demais, e por isso eu tinha de me esquivar pra não ser atingido nos ombros,  pescoço, queixo e bochechas - era uma cena um tanto ridícula, e acredito que algum possível espectador estava rindo-se ao assisti-la. Tive a mesma vontade desesperada de voltar para casa, mas não foi o que fiz.
Querido leitor romântico, se até agora não encerrastes a leitura, mereces sofrer com o desfecho desta história, e não darei conta dos detalhes para assim adiantar ambos: final da história, e teu espanto. Dormi com Millie no mesmo motel que acordei com Karen. Pedi o mesmo quarto, e enchi a mesma banheira.

Não escreverei nem mais um parágrafo, leitor querido. Ouvi um barulho vindo do outro lado do quarto: acho que Millie está despertando.

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Divagarei um bocado, amigos. Por favor, sejam pacientes



Sinto enorme agonia neste momento. Tenho andado pouco deprimido. Quase posso dizer que há uma ponta de felicidade em mim. O problema é que sempre me lembro de que o que estou fazendo vai contra o que acredito. Mil perdões. Eu lhe devo mil perdões. Não mereço teu braço, teus lábios e teu colo. Tentei te avisar, mas sou fraco por demais.

Se ao menos você soubesse o quão pouco te mereço... Sou um ser humano detestável. Tenho plena noção de meus atos, o que me torna ainda mais detestável. Não lhe mereço, minha senhora.

És demasiado pura para envolver-se com tamanho problema. É exatamente o que sou: um problema. Os livros que li, as canções que escutei, as pessoas com as quais convivi, os filmes que assisti e ainda um par de outras coisas, me tornaram o que sou: um ser totalmente desajustado a esta sociedade. E não me julgo errado, cara senhora. Mas meu julgamento é um tanto diferente do seu. Não te mereço.

E não te devo explicações, te devo liberdade. Te arranco a liberdade com a língua. Sou um ser humano deplorável.

E oitenta pessoas me tentam salvar. Pobres diabos. Não entendem que não se pode impor a droga da salvação à pessoa alguma. Não quero ser salvo, quero distância de seus ideais e tenho pavor de me tornar alguém que seja até mesmo suavemente parecido com vocês. Eu vos odeio, salvadores.  Prometo pedir ajuda se um dia desejar me render à vossa podridão, mas, enquanto isso, não me salvem.

E não aceito vossos julgamentos, meus senhores. Não os aceito pelo simples fato de vivermos em diferentes mundos mesmo que dentro da mesma sociedade. Podes pensar o que quiser sobre quem quiser, assim como posso pensar o que quiser sobre seu pensamento. A liberdade muito me ensinou. 

segunda-feira, 9 de julho de 2012

Palavras sobre o á...


Tentar descrever tão singular sensação é um tanto complexo. 
Sente-se certa queimação no estômago e torpor tremendo. Por vezes a felicidade é momentânea. Esquecemo-nos de coisas mais sérias e mudamos nossas prioridades. A felicidade é momentânea, mas sublime. O estômago é, de fato, um espetáculo à parte e merece, também, a repetição: um mix de queimação com um delicioso balanço. 
Vez ou outra há um sorriso bobo estampado em nossos rostos. Nossas atitudes mudam e perdemos uma dose de cautela. Ficamos avoados. Por vezes divagamos e ainda outras vezes temos o pensamento fixo em um único alvo. Às vezes cantamos e agimos feito tolos.

Engana-se quem acha que o assunto é puro. Exatamente o tipo de destruição pela qual tenho procurado.